sábado
segunda-feira
Mãe Frida, rascunho I
Quem te quebrou a coluna com os dedos?
Quem te pisoteou a carne,
Deixando-te assim, adornada
Em faixas, livre de sonhos ou medos?
Que se te fragmentou, Frida?
E que mão malvada te deformou
o rosto, Te rasgou o lábio,
Te rompeu o ventre?
Quem te desfez o corpo que o doutor não cura
Por muito que tente?
Que se te fragmentou, Frida?
As vértebras despedaçadas e escondidas,
Agrupadas em ti em arcadas de ruínas?
O teu útero seco e mutilado
Que nunca carregou o teu menino,
Apenas serve para o pecado?
O fogo de vida nos teus olhos carvão?
Ou o peito onde um dia te bateu o coração?
terça-feira
King of Spain, the tallest man on earth
dá-me nome,
outro tom de pele,
outro berço.
reinventa-me
que hoje acordei sem me conhecer, o meu rosto fugiu-me quando me aproximei do espelho, os cabelos cairam-me de cansaço
de ser eu.
a minha pele ficou transparente, os meus olhos opacos, amanheci desenho inacabado.
desenha-se, traça-me delicada de ancas largas, cabelos longos, braços abertos,
tinge-me os lábios e os cabelos com o teu sangue,
renomeia-me, chama-me vida,
sopra-a ao meu ouvido, insufla-me dela.
reinventa-me
faz-me rainha de algo
(coroa-me)
apaga-me e redesenha-me
que já custa ser eu.
[sem intenções de poesia]
(Un)told Prejudices
Eu.
Foda-se.
Tu.
Foda-se esta cidade
e toda a gente nela.
(E o som do piano chega,
distante)
Foda-se.
Eu.
Nós.
Foda-se esta cidade
e todos os fantasmas dela.
Foda-se, Foda-se...
(E o piano calou-se)
French Teen Idol que não me larga. Foda-se!(este bem podia ser o nome do texto)
domingo
Neotropicalismo
Ainda existe um pouco de Brazil em mim.
Sim, sim, aquele pedacinho quente e feliz,
guardado numa caixinha esquecida algures.
27 de maio, no coliseu. com grizzly bear.
quarta-feira
Fleur de Saison
Para a semana pintá-lo-ão, não coles coisas na parede, diz a mãe. E eu obedeço, pensando que o laranja de outros tempos já não me serve, já não adere à minha pele, sedenta de tons mais escuros. Por isso não te expus na parede ao lado da secretária, em frente ao retrato da audrey ou por cima da cama baixa, guardei-te antes numa gaveta da secretária de madeira escura, juntamente com as dezenas de desenhos antigos de seres definhados que arranco do caderno, esperando que definhes com eles, com as dezenas de traços mal delineados com que ocupo horas que deviam ser de estudo ou de convivência com quem me ama mas que são passados comigo mesma, nessa necessidade de me ocupar de mim o tempo todo.
Para a semana o meu quarto estará bordeaux, quase cor de sangue, para combinar com o abandono a que foi deixado, aos livros já lidos que se acumulam na secretária, aos vestidos pretos que são deixados de forma anárquica no cadeirão e à alma minha que sangra sem razão.
sábado
Volta, Vian
É o fim, caro amigo. Fim de nada, que nada houve senão nós, que ainda não acabámos, como comprovo quando dou a mão ao fantasma que és, do qual nunca passaste, espectro que criei numa procura alimentada pelo devaneio de alma que sou.
Ainda assim é o fim, caro amigo, doce amigo, fim da história que nunca ninguém cantará, que ninguém dela sabe senão nós, que não cantamos coisas que não existiram.
O tempo acabou. Lembras-te do início? Não?, então bebamos, criemos a memória do inicio que não houve. [ou bebamos para esquecer que o houve.]
Abres a porta e vais-te, magoado, mudo, deixas-me sozinha com a saudade que não é mais que memória de nada personificada em dor.
E limpo as lágrimas ao meu vestido negro, sempre negro, esperando o teu regresso que não chega, enquanto a memória se desvanece e o teu nome é esquecido.
[Não, não me movo, não te procuro, não te segurarei mais nos braços, é o fim.]
Sibylle Bayer e Sylvia Plath, deusas minhas.
quarta-feira
Bring Me The Horizon
The Sadness will never end, com Andrei Machado e os seus Abismos pelo meio.
hallelujah
sábado
Before Sunrise
deus!, e as saudades da Ikunnaprinsessa! [Com Safo, com Safo, que a cada encontro te necessito mais, abelha rainha, musa dos primórdios]
[Ainda não nos desfizemos, como o espelho que caiu e se desfez em mil pedaços. Apenas deambulamos perdidos e afastados neste mundo de sombras.
Abraço há muito adiado ao Banana que em breve me espera, salvemo-nos, salvando-te da perdição]
Ámen
sexta-feira
terça-feira
Pequeno reino povoado com personagens de sabato ou de hoffman, que se matam, e cometem adultérios e adoram demónios, seres saídos da mente desses deuses de uma religião panteísta por mim inventada, tentativa de colmatar a falta da outra.
[Lovage, Sex( I'm A)]
domingo
Since we've been wrong
Devendra Banhart, I Do Dig a Certain Girl
Hoje estavas mais leve -apaixonada? -, a verdade é que já não o sei, por vezes julgo mal te conhecer e, no entanto, ninguém me conhece tão bem como tu, musa dos primórdios.
És a ponta do novelo que me liga a um passado tão próximo e tão distante a todos, minha ponte entre o que conheço e aquilo que esqueci.
Mas voltemos à tarde e ao sol, que nos aquece e nos sufoca, o mesmo sol que nos aqueceu, meninas - será que não o somos?, sem sonhos ou princípes - como a liberdade nos era sagrada! -, diferentes das outras, as de fora do nosso pequeno universo. E estranho-me dizendo isto, pois sempre te associei a dias chuvosos, que combinavam com a nossa roupa escura [ como a tua clareou!] e com o vazio e uma vontade de nele permanecer[no vazio].
Mas estás bela e clara e apaixonada e já não queres morrer aos vinte e sete. [oh, como o sol se reflecte em ti!] E sorrio contigo, enquanto a chuva me encharca as roupas escuras, rodeada por nada.
sexta-feira
Destino: Hospital de S. João
Foto datada de março deste ano.
02h02 marca o relógio digital. Alguém pensa em mim, diria a Babixe e o Cabral responder-lhe-ia: "Claro, Bárbara, como não?", com aquela ironia que se usa com uma criança, enquanto a Xana tiraria fotos a nós e a tudo e eu riria de boca fechada. Debaixo do olhar maternal da Cristina.
Escrito na nostalgia provocada por um ano que se finda.
domingo
junho em nuvens
[maldito "tloc-tloc" que me acompanha]
paro sem razão, irritada, e olho o céu cinzento, que me lembra a cinzenta pessoa que eras: quero-te de volta, sem os saltos, ou o lápis em falta, ou a carteira.
não há saudades mais profundas do que as de nós mesmos.
quinta-feira
369
shiuuuuuuuuuuuuuu. cala-se a voz na minha mente e a Vicarious Atonement. ergue-se alto o som das gaivotas, coitadas que em três meses nunca as ouvi, como os sentidos se vão despertando em mim, deuses!, gaivotas infelizes, tão longe do mar e tão perto da autoestrada, gaivotas, mais cantadas do que eu alguma vez serei, pobre ser [e lá fora os carros não param, vrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr, velozes, na sua velocidade de bestas metálicas e reluzentes do novo mundo].
e já toda a euforia se esvai, galopa a melancolia na minha direcção.. não, não, não, vai-te que hoje sou amada e frágil e feliz...
e para quê a melancolia e a tristeza se a vida me deixa a cada segundo, mesmo que eu, em vão, a tente apanhar, a todos os fotões de juventude que o meu corpo emite. oh, pobre corpo, com tantos fotões ainda por emitir e que me parecem tão poucos. não, não, vai-te, vai-te, e a euforia debate-se e esbofeteia-a, e já uma briga de mulheres por um amante parece, e eu, marido/namorado infiel que sou, a isto assisto sem nada fazer senão quase desesperar. e, como sempre acontece, enquanto as minhas concubinas se debatem, eis a serenidade que chega, cheirando a jasmim e a flor de laranjeira, vestida do seu odor... E me arrebata.
[Tantos "E"s, triste sina. E esqueci-me das maiusculas.]
domingo
À Virgem e à Puta, com carinho da Semi
depois de dois dias inteiros a ouvir músicas dos clássicos de animação, concluo que nada existe em mim além de saudade, saudade de casa e da faculdade, de amigos que não vejo ou que vejo em demasia, de ti, Apolo, embora não saiba com certeza a que rosto devo atribuir-te as linhas clássicas, de uma série de momentos que já nem tenho a certeza se existiram ou se apenas foram criação minha, de tempos de inocência que tenho a sensação de ainda não ter perdido em quase duas décadas de vida...
E é nesta linha que concluo que cada vez me pareço mais com Pessoa, o qual insultava em exagero nos tempos chuvosos de secundário...
Ainda assim, preferia ser Plath, e ter um Ted para cantar Wet Dreams da Soko, gritando com ênfase o verso mais enfático, e ter discussões literárias sobre os meus bloqueios, e escrever poesia negra e obscura, e matar-me aos trinta e dois, com dois bebés rosados, em vez de morrer virgem aos cinquenta, com um punhado de cartas de amor ridículas e um fígado em mau estado (que calculo que o meu também esteja)...
Não, não, não, esquece, esquece, esquece!! - Seguindo a resolução da Puta, por muito tarde que venha, inventada numa noite que deveria ser de estudo mas foi de maquilhagem e de filosofias de vida e de confidências porcas e de amizades a fluorescer (que todos os Deuses nos salvem do chumbo!).
Como diria a Meg no Hércules, I won't say I'm in love.
segunda-feira
O cabelo do jovem que perdi.
Meus olhos brilham menos.
Já não tem jus a beijos minha boca.
Se me ainda amas, por amor não ames:
Traíras-me comigo.
Ricardo Reis
Já te devia saber phénix. Vou-te varrer, então, do chão da casa de pedra que sou, ou simplesmente dos azulejos da cozinha, e deixar que a chuva e o vento de ti tratem.
Estou farta de aves míticas, quero um canário!
domingo
Escreve-me, Fernando
Fernando Pessoa
Ninguém escreve melhores cartas de amor que um louco [que não um louco de amores].
Mas eu sou louca e não as sei escrever...
Escreve-me, então, Fernando, que não há nada mais entediante do que homens bonitos e mentalmente saudáveis...
quarta-feira
Quatro Anos De Lamechice [purinha, livre de iões]
Afinal, se sempre te elevei acima de tudo e todos foi por ter tido a certeza de que, mesmo estando longe, sobreviverias a todos...
No fundo, dizer que és a minha melhor amiga é pouco, és um dia de sol e felicidade com "fall from the stars" dos god is an astronaut e "a fera na selva" de henry james, melhor livro que já li, alma que me completa, musa a quem dedico metade dos meus contos...
Que outros aniversários nos esperem :)
