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quarta-feira

Fleur de Saison

Queria forrar o quarto com os meus desenhos e a tua poesia, o meu traço e a tua alma, para me sentir em casa quando a ela chegasse, ainda que uma vez de mês a mês. Queria não deixar um só espaço livre deles, fora o quadro da audrey que guardo com carinho, boneca de luxo e musa minha, ou os desenhos que estraguei em telas.
Para a semana pintá-lo-ão, não coles coisas na parede, diz a mãe. E eu obedeço, pensando que o laranja de outros tempos já não me serve, já não adere à minha pele, sedenta de tons mais escuros. Por isso não te expus na parede ao lado da secretária, em frente ao retrato da audrey ou por cima da cama baixa, guardei-te antes numa gaveta da secretária de madeira escura, juntamente com as dezenas de desenhos antigos de seres definhados que arranco do caderno, esperando que definhes com eles, com as dezenas de traços mal delineados com que ocupo horas que deviam ser de estudo ou de convivência com quem me ama mas que são passados comigo mesma, nessa necessidade de me ocupar de mim o tempo todo.
Para a semana o meu quarto estará bordeaux, quase cor de sangue, para combinar com o abandono a que foi deixado, aos livros já lidos que se acumulam na secretária, aos vestidos pretos que são deixados de forma anárquica no cadeirão e à alma minha que sangra sem razão.

domingo

Since we've been wrong

toda tu és névoa, abelha rainha, com a tua saia rodopiante que reflecte os raios solares, com o teu cheiro de nada e de orvalho e teu cabelo dourado com sabor a infância.

Devendra Banhart, I Do Dig a Certain Girl


Hoje estavas mais leve -apaixonada? -, a verdade é que já não o sei, por vezes julgo mal te conhecer e, no entanto, ninguém me conhece tão bem como tu, musa dos primórdios.
És a ponta do novelo que me liga a um passado tão próximo e tão distante a todos, minha ponte entre o que conheço e aquilo que esqueci.
Mas voltemos à tarde e ao sol, que nos aquece e nos sufoca, o mesmo sol que nos aqueceu, meninas - será que não o somos?, sem sonhos ou princípes - como a liberdade nos era sagrada! -, diferentes das outras, as de fora do nosso pequeno universo. E estranho-me dizendo isto, pois sempre te associei a dias chuvosos, que combinavam com a nossa roupa escura [ como a tua clareou!] e com o vazio e uma vontade de nele permanecer[no vazio].

Mas estás bela e clara e apaixonada e já não queres morrer aos vinte e sete. [oh, como o sol se reflecte em ti!] E sorrio contigo, enquanto a chuva me encharca as roupas escuras, rodeada por nada.