segunda-feira
Mãe Frida, rascunho I
Quem te quebrou a coluna com os dedos?
Quem te pisoteou a carne,
Deixando-te assim, adornada
Em faixas, livre de sonhos ou medos?
Que se te fragmentou, Frida?
E que mão malvada te deformou
o rosto, Te rasgou o lábio,
Te rompeu o ventre?
Quem te desfez o corpo que o doutor não cura
Por muito que tente?
Que se te fragmentou, Frida?
As vértebras despedaçadas e escondidas,
Agrupadas em ti em arcadas de ruínas?
O teu útero seco e mutilado
Que nunca carregou o teu menino,
Apenas serve para o pecado?
O fogo de vida nos teus olhos carvão?
Ou o peito onde um dia te bateu o coração?
sábado
the tallest man on earth
O mais alto homem da terra
Cobrindo o vale com o seu corpo,
No ar vibra ainda a sua voz,
O chão treme ainda dos seus passos.
Está morto, frio
O mais alto homem da terra
Como morreu? Quem o matou?
Atacou-o a tuberculose?
Foi vítima de guerra?
Gritamos sem resposta,
Ouvindo somente os ecos das montanhas,
Riem-se os pastores em redor
Cantam pássaros pousados
em árvores em flor.
Que morreu o mais alto homem da terra
Mas ninguém o chora,
Por nenhum lado se avista dor.
O mais alto homem da terra
Não passava de um homem.
terça-feira
(Un)told Prejudices
Eu.
Foda-se.
Tu.
Foda-se esta cidade
e toda a gente nela.
(E o som do piano chega,
distante)
Foda-se.
Eu.
Nós.
Foda-se esta cidade
e todos os fantasmas dela.
Foda-se, Foda-se...
(E o piano calou-se)
French Teen Idol que não me larga. Foda-se!(este bem podia ser o nome do texto)
domingo
Pessoa Revisitado
Como ridículos são
Todos os amores que as tiveram
Como destino….
E, sentimentos passados, eis-me
Folheando-as, sentindo odor
Das cartas que ninguém leu
Promessas de amor
Cujo único leitor era eu…
Vergonha escrita
A tinta preta e folhas soltas.
A vida é uma sucessão de cartas de amor,
É isso que a faz tão ridícula…
sábado
Ricardo Reis II
Não o digas
Para que não o sinta
Para que não o sofra.
Para que a vida passe,
Assim, suavemente,
Sem tormentos ou lágrimas,
Ou que depois lamente
O ter-te amado em demasia
Quando podia ter simples mágoa
De não te ter amado de todo.
[a história de um vício]
O teu corpo
Há um verso de Goethe
Em cada curva do teu cabelo,
Uma sinfonia
Em cada centímetro de pele teu,
Quadros de Klimt
E de Kahlo
Em cada olhar que é só meu…
E há romances imortais
Nos momentos em que somos só tu e eu…
Todo ele sonho e névoa e céu,
O corpo que apenas se materializa
Quando repousa junto ao meu…
segunda-feira
It's Oh So Quiet
Com cores incertas,
Amores desconhecidos
E flores exóticas
SHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH
domingo
Insónia
são o cansaço de outro tempo,
um tempo sem tempo
de lágrimas sem sal...
E quando, por fim,
me julgo adormecer,
a insónia instala-se
e alastra pelos quatro cantos do quarto
qual lágrimas de sono que me humedecem a almofada...
E os fantasmas e os livros e os pensamentos
me assaltam a cabeça
enquanto desespero...
Eu queria tanto dormir...
segunda-feira
Janeiro, no fim ou A Beleza das Pequenas Coisas
Enquanto, lá fora, tu e a neve se fundem
E confundem
(Os outros.)
Bjork – "Hidden Place", com pitadas de Ashes Divide
[ primeira cadeira feita, neve no Porto, um pássaro na janela e um gato no colo :)]
domingo
sábado
Oldies
Que não fui.
Criança cujo sorriso me doira
As horas.
E espalha a nostalgia de um passado
Que não existiu.
E brinca, a criança loira,
Brinca na eternidade,
Sorri-me, demoradamente,
Naquele riso infantil
Que nada mais deixa que saudade.
Quem és, criança dourada,
Cujo nome é o meu?
Criança, de mim tão distante o destino teu,
Nessa foto imortalizada.
Foste sonho, ser de quimeras feitos?
Somente passado?
Ou futuro?
És aquela saudade de não ser que ainda dói
No peito?
Está feliz a criança loira,
E feliz, brinca, sentada no chão,
De azul está vestida,
O universo tem na mão.
E me perturbas, pequena infanta,
Com teu riso que ainda não viu a Primavera
Com teu olhar, de reprovação, no tempo congelado,
De minhas falhas à espera.
Sei que me aguarda, a criança loira,
Para lá de um rio de fogo,
E me abraçará, a criança loira,
Cujo sorriso minhas noites doira,
E serei ela de novo.
[falta de tempo para passar textos recentes]
sexta-feira
Venus As a Boy
Envelheço num ritmo acelerado, como de se de uma hora para outra me transformasse numa versão mais triste e melhorada de mim mesma, mulher que um dia serei. Por enquanto, essa ágil e melancólica criatura apenas desperta com os teus beijos e toques, somente vive quando os corpos se colam e o teu se torna parte do meu, enquanto estremecemos e nos amamos e tu estás dentro de mim, filho a habitar o materno ventre.
És o meu filho primogénito, aquele que me começa a habitar quando estamos nus, a beijar-nos somente, um sobre o outro, duas crianças inconscientes ainda e que dou ao mundo quando, após fome saciada, estamos um ao lado do outro, e o nosso suor evapora, conscientes do homem que és e da mulher que sou.
Depois olho-te, qual mãe que olha um recém-nascido, nunca tão amado, e tento fixar-te o rosto, o corpo, tudo: o nariz de Octávio, os ombros largos, o pescoço forte, a barriga musculada, as pernas bem-feitas…
E depois tens aqueles momentos em que me olhas como um menino perdido, apaixonado, a contemplar o mais precioso dos tesouros e eu julgo nunca dessa maneira ter sido olhada, e iludo-me, pensando que nunca assim olhaste alguém…
Joe Black
Joe Black assomou à porta,
Pálido e forte como o Destino,
Com o olhar gélido do Tempo,
Nos braços transportando a morta.
Promete-nos que volta, Joe Black,
E, com ele, o silêncio
Dos quartos
E dos tempos já esquecidos…
E me abraça, Joe Black, charmosa Morte,
Neste corpo de forasteiro…
E eu choro, no seu peito,
Sentido o seu cheiro a não-ser,
Enquanto tu te afastas
De mão dada com a vida.
